" Era uma vez... Dois seres humanos incrivelmente estúpidos que acreditavam na história da Cinderela. Claro que aqui podemos incluir praticamente toda a humanidade. Prefiro deixar a mitologia de parte por uns momentos e observar a realidade tal como é: sem histórias de princesas perdidas à espera de um salvador (nem que seja um sujeito qualquer que adora chicotes, algemas e outra parafernália do género).
A mente não ama, quer coisas. Não há nada de errado com isto. Quando tenho definido o que quero do outro é fácil criar um relacionamento. E mais fácil se o outro disser também o que quer de mim. E saber se é possível dar e receber o que se pretende. Integridade absoluta.
Mas teimamos em fazer este jogo de esperar que o outro adivinhe o que muitas vezes nós próprios não sabemos.
Não há nada de errado em dizer que o que espero do outro é roupa passada a ferro, ou comida feita, ou sexo, ou afecto, ou partilha (e convém definir o que entendo por partilhar), ou diversão. O importante é não esconder o que se pretende do outro. E o outro pode sempre dizer não. Desta forma não há surpresas para quem quer que seja.
O que acontece num relacionamento amoroso a dois é sempre a mesma história. Inicialmente projectamos no outro as qualidades que não conseguimos ver em nós. Apaixonamo-nos por aspectos nossos que rejeitamos. E chamamos-lhe “amor”. Eventualmente o outro irá revelar quem é de verdade. Ninguém aguenta muito tempo carregar a projecção de outro. E é aqui que começo a ver defeitos onde antes via virtudes.
O outro é a pessoa que me irá sempre mostrar onde não me amo. O que ainda rejeito em mim. E quando amo a totalidade que sou, é fácil amar-te. E é fácil assumir que aprendi o que o outro tinha para me ensinar e está na altura de me afastar. Amo-te tanto que nem preciso que estejas ao meu lado para te amar.
Depois há esta história também absurda que diz que um relacionamento entre duas pessoas deverá ser eterno. Um pesadelo! Um relacionamento irá durar o tempo que durar. Nem um segundo a mais. E sim, poderá ser para uma vida inteira. Ou apenas uma noite.
A mente é uma eterna insatisfeita. Antes não esperava nada de ti, a tua presença era suficiente. Entretanto mudei de ideia. Agora quero que mostres que me amas, mas à minha maneira. E, claro, nem sequer te direi como o podes fazer. A realidade é que eu mesmo não sei como amar-me. E espero que tu saibas! A loucura da mente!
Se falares muito, canso-me. Se tiveres longos períodos de silêncio, fico aborrecido. Se me levares a passear todas as semanas, deixa de haver o elemento surpresa. Se não me levares a passear todas as semanas, é porque não gostas de mim.
Adoro sobretudo aqueles livros que ensinam a “conquistar” o amor da nossa vida. Jamais quereria ser o conquistado. Sabe-me a manipulação.
Lembro-me de uma vez responder a um questionário acerca do “amante perfeito”. Consegui uma fabulosa pontuação de zero! Se alguém quiser o amante imperfeito, estou por aqui!
Perguntavam-me se preparava refeições românticas para a outra pessoa. Não. Preparo refeições românticas para mim, o outro apenas beneficia do meu amor-próprio. Se não gostar da minha refeição, terá um problema, eu não. Porque preparei a refeição a desfrutar do prazer de a preparar, no gozo que me deu. Foi por mim que a preparei. Perguntavam-me se vestia alguma peça de roupa para agradar ao outro. Estupidez! Toda a roupa que visto é para me agradar a mim. Se o outro não gostar, é óbvio que tem um problema. Perguntavam também se dizia muitas vezes “amo-te” (uma vez ao dia, duas, mais de cinco). Não vejo porque dizer amo-te, mostro-o. Mostro que amo o outro através das minhas acções. E sei que o outro irá interpretar as minhas acções de acordo com a sua história. Não posso fazer nada para que me ame ou não. Isso é algo que apenas o outro pode controlar.
Mas poderia amar-me o suficiente para amar o facto de o outro se afastar?
Outro aspecto delicioso dos relacionamentos é quando uma das pessoas pede “um tempo” ou “espaço”. Patético! Em realidade a pessoa que pede um tempo está confusa e não sabe o que quer realmente. É ok estar neste estado. Não é ok responsabilizar o outro pelo nosso estado de confusão mental.
Ou quero. Ou não quero.
Por este motivo é que ofereço o que quer que seja apenas uma vez. Se a resposta inicial for um “não sei” ou “não”, vou apregoar para outra freguesia.
Só tenho esta vida. Só esta! Não vou andar às voltas à espera que os outros me compreendam ou me ouçam ou me amem. Será que sou capaz de fazer isso? Será que sou capaz de ouvir o outro, ou compreender o outro? Se o outro me diz “não sei se quero estar contigo” isto só significa que o outro está confuso e não sabe o que quer. É ok estar assim. E eu, saberei o que quero? "