domingo, 29 de junho de 2014

Formiga e cigarra eu sou!


Este tempo parado

" A paisagem da Capadócia parece convidar a pensamentos profundos. A economia de elementos conduz à economia de temas: vida, morte, tempo. Há toda a distância e todo o silêncio. Há a certeza de que nos encontramos diante de um horizonte maior, que existia antes de nós e que continuará muito depois de já não estarmos aqui. O olhar regista aquela terra, aqueles montes de rocha arenosa, até onde é capaz. Para além dessa medida, fica a sensação de que a Capadócia continua até ao infinito. Os olhos não alcançam o infinito, isso sempre soubemos.
É nessa paisagem que existem as chaminés de fadas, nome dado a grandes formações rochosas, normalmente cilindros ou cones, moldados pelo vento e pelo tempo. No topo, têm sempre um bloco de rocha mais rígido que protege e, ao mesmo tempo, expõe à intempérie. As formas, sempre arredondadas variam consoante as diferentes camadas de solo, mais ou menos resistentes. Por sua vez, a composição do solo depende do passado vulcânico da região. Ou seja, essas formas revelam um tempo de séculos e milénios. São relógios da natureza.
A natureza tem maneiras de medir o tempo em todas as escalas possíveis: o bater do coração de um pardal, o movimento dos planetas. Cada um desses ritmos existe em dependência direta de outros ritmos. Entre tudo isso, existimos nós, seres humanos, com a opção de refletir, de nos localizarmos perante a realidade e, mesmo, de escolhermos o nosso ritmo. Temos a opção de nos acertarmos, exatamente como se fôssemos relógios: analógicos ou digitais.
«A eternidade não existe. Um dia o planeta desaparecerá e o universo não saberá que nós existimos.» As palavras são de José Saramago, disse-o numa entrevista. Não me custa concordar com elas. É impossível parar a erosão. Há séculos suficientes para gastar a memória de tudo o que nos rodeia. Aquilo que aqui está, à frente do horizonte, parece tudo o que existe; podemos até chegar a acreditar que é o próprio horizonte, mas virá o tempo, já aqui está.
Não faz sentido acreditar que o esquecimento retira valor a estarmos aqui. Não deixamos de ter existido por sermos esquecidos. Fomos antecedidos por milhões de pessoas que, aparentemente, toda a gente esqueceu: pessoas tão reais como nós, feitas de uma consciência tão real como esta, rodeadas por uma realidade tão concreta como estar aqui.
Existe um tempo que é só nosso: o meu tempo, o teu tempo. É individual, único e está a contar neste preciso momento. A forma como o medimos, modifica-o porque transforma a perceção que temos dele. À luz dos dias que se sucedem, as horas passam demasiado depressa, tentamos agarrá-las e fogem-nos sempre. Mas segundo as formações rochosas da Capadócia, segundo o tamanho do universo, somos um pequeno brilho, um reflexo de um reflexo, um eco de um eco. E essa verdade, se a soubermos aproveitar, dá-nos paz. "

José Luís Peixoto