quinta-feira, 21 de março de 2013

Assim é a poesia...

Arte Poética de Jorge Luís Borges


' Olhar o rio que é de tempo e água,
E recordar que o tempo é outro rio,
Saber que nos perdemos como o rio,
E que os rostos passam como a água.

Sentir que a vigília é outro sonho,
Que sonha não sonhar,
E que a morte que teme a nossa carne, 
É essa morte de cada noite, que se chama sonho.

Ver no  dia ou até no ano, 
um símbolo quer dos dias do Homem quer dos anos,
Converter a perseguição dos anos,
Numa música, um rumor e um símbolo.

Ver só na morte o sonho, 
No ocaso um triste ouro,  
Assim é a poesia,
Que é imortal e pobre. 
A poesia volta,  como a aurora e o ocaso.

Às vezes certas tardes uma cara,
 Olha-nos  no mais fundo de um espelho;
A arte deve ser como esse espelho
Que nos revela a nossa própria cara.

Contam que Ulisses, farto de prodígios,
Chorou de amor ao divisar sua Ítaca
 verde e humilde.


A arte é essa Ítaca
De verde eternidade e não  prodígios.

Também é como o rio interminável,
Que passa e fica e é cristal de um mesmo
Heráclito inconstante, que é o mesmo
E é outro, como o rio interminável.








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