Assim é a poesia...
' Olhar o rio que é de tempo e água,
E recordar que o tempo é outro rio,
Saber que nos perdemos como o rio,
E que os rostos passam como a água.
Sentir que a vigília é outro sonho,
Que sonha não sonhar,
E que a morte que teme a nossa carne,
É essa morte de cada noite, que se chama sonho.
Ver no dia ou até no ano,
um símbolo quer dos dias do Homem quer dos anos,
Converter a perseguição dos anos,
Numa música, um rumor e um símbolo.
Ver só na morte o sonho,
Converter a perseguição dos anos,
Numa música, um rumor e um símbolo.
Ver só na morte o sonho,
No ocaso um triste ouro,
Assim é a poesia,
Que é imortal e pobre.
Que é imortal e pobre.
A poesia volta, como a aurora e o ocaso.
Às vezes certas tardes uma cara,
Olha-nos no mais fundo de um espelho;
A arte deve ser como esse espelho
Que nos revela a nossa própria cara.
Contam que Ulisses, farto de prodígios,
Chorou de amor ao divisar sua Ítaca
verde e humilde.
Às vezes certas tardes uma cara,
Olha-nos no mais fundo de um espelho;
A arte deve ser como esse espelho
Que nos revela a nossa própria cara.
Contam que Ulisses, farto de prodígios,
Chorou de amor ao divisar sua Ítaca
verde e humilde.
A arte é essa Ítaca
De verde eternidade e não prodígios.
De verde eternidade e não prodígios.
Também é como o rio interminável,
Que passa e fica e é cristal de um mesmo
Heráclito inconstante, que é o mesmo
E é outro, como o rio interminável.

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